Ontem sonhei com você. Entrei sorrateiramente pela
porta da frente. As fotos antigas nas paredes desbotadas, o quarto pequeno e
solitário. Minha sombra confundida com a sua, seu irmão desejando-lhe boa
noite. A cama confortável completamente
impregnada com o seu cheiro, o lençol gelado em contato com meus dedos causa-me
calafrios. Na penumbra, sozinha.
Não sei onde você está, mas sei que choras. Sinto as
gotas que escorrem por suas bochechas, sinto como se escorressem pelas minhas,
mas eu não tenho lágrimas. Estas findam em seus lábios, são salgadas,
deliciosas. Seria este o gosto do seu beijo? Eu não lembro. Seus lábios seriam
frios como o lençol macio sob meu corpo? Eu não lembro.
Ouço passos na escada. A porta se abre. A luz machuca
meus olhos. Ela bufa e sai do quarto. Não me viu. Ninguém vê.
Ouço passos na escada, finamente chegastes.
Olhos inchados, ainda úmidos. A pele sempre tão
branca, vermelha. Já sabia que eu estava aqui, então você correu, certo? Sentiu
saudades, certo? Eu também, só não sei do que. Não tenho lembranças, não tenho
lágrimas, mas tenho saudade suficiente para compensar.
Seus braços me cercam com força, enquanto minhas mãos
dançam por seus fios negros. Voltas a chorar, molhando o pescoço onde seus lábios
gelados descansam. Afasto seus braços encarando os olhos castanhos, secando as
lágrimas com minha língua. Salgadas. Deliciosas. Quero que me beije, mas não
consigo falar. Por favor, beije-me. E você beija. Salgado. Macio. Delicioso.
Sinto que devo ir embora, porém você acomoda-me gentilmente
na cama, segurando minhas mãos com seus dedos ásperos enquanto observo suas
feições. Preciso partir. Devo. Seu aperto torna-se mais forte quando encostamos
nossas frontes. Você não quer que eu vá, mas eu preciso. Devo.
Quando me levanto – afastando-me do seu corpo – seus
olhos tristes me seguem. Eu sei que você quer levantar, eu sei que você quer me
seguir. E você sabe que não pode, não agora.
Nós sorrimos nas fotos antigas presas as paredes
desbotadas. Passo por elas como se nada significassem, pois não tenho
lembranças. Estas são suas e você irá revivê-las milhares de vezes por nós
dois. Você irá encará-las com um sorriso nos lábios frios e lágrimas salgadas
em suas bochechas, assim como encara minhas costas agora. Viro-me e pronuncio
palavras que você não pode ouvir. Quando saio pela porta não a escuto bater.
Ontem sonhei com você. Foi um sonho estranho, foi um
sonho triste. Mas, talvez seja porque você está chorando nas minhas memórias.
Memórias só minhas, que irei reviver milhares de vezes, por nós dois.
~~
Quanto tempo, rs.

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