
Quando não se tem nada a fazer, normalmente nos perdemos em pensamento, revivendo memórias e criando filosofias deturpadas. Uma tarde em casa sem absolutamente nada a fazer, me levou a isso.
Mas antes busquei em meio a minha montanha de livros algum que me interessasse reler. Não demorei a encontrar um pequeno, de capa branca, com detalhes em preto e vermelho. Eu amava a imagem daquela capa, seria capaz de ficar horas a encarando, e ainda nem me sentir cansada quando me afastasse. Li umas tantas trinta paginas, até começar a refletir com meus olhos naquelas frases, não as lendo realmente.
Uma menina com cobertor até o queixo e um olhar de expectativa. Um cobertor vermelho devo ressaltar. A menina amava aquele cobertor, havia sido de seu pai. Esse mesmo que se encontrava sentado em um banco, ao lado de sua cama procurando nas lembranças algo que ainda não tivesse contado. A menina remexia os pés, inquieta pela espera, ansiosa como sempre. Até que os olhos castanhos recaíram sobre ela, iluminados pela fraca luz de um abajur rosa posto na estante branca, pintada pela criança há alguns dias.
O simples assovio da voz do pai fez os olhos ansiosos se fecharem, o corpinho redondo se afundar mais no colchão, agarrando com força o tecido vermelho, como se isso fosse lhe trazer mais conforto.
Em poucas palavras ela não estava mais em seu quarto, quentinha e protegida. Estava na Amazônia em uma viagem de carro com seu avô lhe sorrindo pelo retrovisor. As arvores gigantescas corriam pelo lado de fora do vidro, imponentes e sacolejantes. Passaram por uma enorme placa, e o avô – mais jovem do que poderia se lembrar – lhe comentava algo engraçado, a fazendo gargalhar gostosamente, quase que não lhe sobrando ar nos pulmões.
Alguns segundos depois não estava mais sentada em bancos macios de couro, e sim nas costas fortes do cavalo mais veloz daquela fazenda. Corpo e olhos escuros, cavalgando com tanta ferocidade que o vento estapeava a face da pequena menina. E como em um estalo o alazão não estava mais lá, e seu corpo estava parado no ar, ao menos até ir de encontro ao chão em uma queda dolorosa compensada pela fruta saborosa em sua mão.
Em baixo do tecido vermelho ela pode sentir o gosto doce e levemente azedo tomando conta de suas papilas gustativas, a dor da queda desaparecendo. O sorriso genuíno estampando o rosto infantil.
“Pronto filha, por hoje está bom! Amanhã eu me lembro de outras histórias.”
“‘Ta’ bem pai. Me conta a do cavalo amanha de novo? “
“Conto! Boa noite princesinha, amo você.”
“Também te amo pai.”
E no dia seguinte, novas histórias de infância. E nas semanas seguintes, o primeiro capítulo de um livro da sua estante branca. Depois o segundo, o terceiro. E lá se ia outro livro, e mais outro e mais outro. Até que ela já não precisava mais da presença do pai para dormir e muito menos de seus olhos e seus lábios para lerem a história a ela – a menininha fazia por si mesma agora. Buscava livros na biblioteca, ganhava outros de presente, e se perdia cada vez mais naqueles amontoados de sonhos.
Com o tempo seus professores passaram a lhe dar livros como tarefa, estes que ela lia de bom grado. E em mais alguns anos, com seu dinheiro minguado já comprava os próprios livros nas livrarias da cidade. Uns de capa preta e laranja, outros de capa rosa, outros de capa marrom e outros de capa branca e detalhes em vermelho e preto, que releria mais umas tantas vezes quando estivesse em casa de tarde, sem nada a fazer e pouco a filosofar.
Leria umas tantas trinta paginas até se perder em suas próprias lembranças de como lhe foi apresentado os sonhos em formar de palavras. Abrindo os olhos embaçados pela saudade.
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Primeiro post de 2011. Gostei do fim, não gostei do inicio! haha Enfim... Espero que o ano tenha começado bem, e se não, que melhore. Prometo que ao menos os meus textos irão ;D